terça-feira, 6 de maio de 2008

Caminhos do Coração: entre a inovação e o ridículo


Lembro de um dia em meados do ano passado onde eu folheava um dos grandes jornais da Paraíba.Tudo ia muito normal até me deparar com uma nota muito estranha no caderno de TV: “Próxima novela da Record terá uma escola para mutantes”. Pensei que aquele jornalista estava doido ou queria zoar com os leitores.Era muito irreal ver mutantes na nossa dramaturgia. Infelizmente eu estava errado e ele só errou com a escola.

Em agosto de 2007 a Rede Record estreava Caminhos do Coração. Escrita por Tiago Santiago e possuindo um tremendo investimento em produção e divulgação, chegou sendo tratada como uma grande inovação na TV brasileira.

A trama da novela gira em torno de uma clínica que modifica seres humanos transformando-os nos citados mutantes. Entre uma história policial, arte circense e outras coisinhas mais, o principal no enredo seria o embate entre os mutantes do bem e os do mal. Sendo que com o passar dos capítulos realmente foi ficando comprovado que a produção da TV do bispo era realmente inovadora: ninguém nunca tinha feito algo tão tosco na história televisiva brasileira.

Uma série de fatores transforma “Caminhos” numa verdadeira idiotice. Já começa pelo nome, porque uma novela que fala principalmente de mutantes se chama Caminhos do Coração?Outra coisa é em relação à idéia, diga-se de passagem não é nem um pouco original , mutantes convivendo com pessoas normais é o mote da série americana Heroes (exibida no Brasil pela própria Record) e é um pouco também dos X-Men. Os efeitos especiais que no início da novela eram citados como semelhantes aos de Holywood se mostraram dignos de Chaves e Chapolin .

Parece ainda que existe um grande problema na emissora paulista quando o assunto é contratação de novos atores. O negócio é contratou não tem onde colocar, manda o Tiago Santiago inventar um novo mutante.A novela tem um dos elencos mais inflados de todos os tempos, é um entre e sai tão grande que nem os fãs conseguem assimilar direito.E não para por aí.

Na metade da história boa parte das personagens foi deslocada para uma ilha, de onde eles tentam sair a todo custo sem obter êxito.Isso lembra alguma outra produção?Lost é claro.É nessa ilha onde acontece o fato mais ridículo, quando parecia que o folhetim não poderia ir além ele foi, apareceram dinossauros lá (como é que pode uma coisa dessas?).Os bichinhos pareciam ter saído daquele filme não menos tosco que o SBT já exibiu, Dinotopia, são efeitos simplesmente deprimentes.

Mas, porém, entretanto, todavia, como desgraça pouca é bobagem, surge uma surpresa.Quando a novela caminhava para sua reta final vem à bomba: Caminhos do Coração terá uma segunda temporada. Batizada de Os mutantes a nova fase da tosqueira estréia no começo de junho e concorrerá diretamente com A favorita novo folhetim global das 21h, haja vista que as criaturinhas da Record serão exibidos uma hora mais cedo.Toda essa pendenga que vem por aí terá sua história se passando na já citada ilha.Vão entrar mais umas dúzias de atores e uma nova penca de mutantes.

O que me impressiona é como uma novela como essa pode fazer sucesso no nosso país (se é que faz).A teledramaturgia é um dos principais produtos culturais do Brasil e nunca foi preciso imitar conceitos importados.Um dos méritos das nossas produções é sempre discutir problemas sociais e tentar levar para a história um pouco de realidade, coisa que esse besteirol pseudocientífico passa longe.

A Record se defende e continua com o discurso da inovação e não só pelo tema, diz ainda que será a primeira novela não musical a ter uma continuação na TV brasileira. Esse negócio não deveria nem ter saído do papel quanto mais ter duas temporadas.

Inovar é sempre muito bom, mas contanto que não caia no ridículo.Temos grandes exemplos inovadores em nossa TV: Beto Rockefeller, Roque Santeiro, O fim do mundo, Pantanal, Xica da Silva e muitos outros.E todos foram sucessos estrondosos graças também a uma grande qualidade de texto e de produção.

Espero sinceramente que não inventem mais temporadas para “Caminhos”, porque já seria abusar.Vamos aguardar as doidices da nova fase, mas é certo que se as coisas continuarem no ritmo em que estão, daqui a pouco aparecerão na ilha personagens de Madagascar, Os outros, Tom Hanks, Magneto, Leonardo di Caprio,Ulisses Guimarães...e por aí vai.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Premiação do Cinema Brasileiro


Na noite da última terça (15) foi realizada a cerimônia de entrega do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, entregue pela Academia Brasileira de Cinema , evento que neste ano chega a sua 6° edição.O grande vitorioso da noite foi também o grande derrotado, Tropa de Elite de José Padilha levou 9 estatuetas mas perdeu como melhor filme para O ano em que meus país saíram de férias de Cao Hamburguer.


Fora a surpresa da premiação principal , o resto já era esperado.Wagner Moura venceu a disputa como melhor ator, Hermila Guedes ganhou como atriz pelo premiadíssimo O Céu de Suely, Milhem Cortaz( o 02 de Tropa) foi o melhor ator coadjuvante, a perfeita Sílvia Lourenço venceu como atriz coadjuvante por sua viciada de O cheiro do ralo.Destaca-se também José Padilha como melhor diretor, O cheiro do ralo como melhor roteiro adaptado e Santiago como melhor documentário, sem falar no mais que previsível prêmio de melhor filme escolhido pelo público para Tropa de Elite.

Entretanto fica a pergunta no ar, porque o filme de Cao ganhou o principal prêmio? Não quero denegrir a obra e tão pouco puxar sardinha para os outros, mas ele era o menos conceituado entre todos. Somando-se todos os seus concorrentes temos mais de 10 prêmios em festivais nacionais e internacionais enquanto O ano não tinha nenhum.Comparando-o com o seu principal concorrente,Tropa de Elite, e o saldo da festa fica ainda mais difícil de entender já que a obra de Padilha além dos citados prêmios levou ainda montagem, maquiagem, efeitos especiais, fotografia e som , e ele ganhou apenas melhor roteiro original e direção de arte ( além do principal). Roteiro e direção de arte fazem muita diferença mas atuação e direção não contam? Fotografia não é relevante?Coisas que só nossa Academia poderá responder.

Polêmicas e discussões à parte, o grande vencedor disso tudo é o nosso cinema que está cada vez mais fortalecido.Por isso vida longa ao cinema brasileiro e parabéns a todos os vencedores do Grande Prêmio .



terça-feira, 18 de março de 2008

CQC: Uma excelente novidade

Estreou na noite de ontem na TV Bandeirantes o Custe o que Custar (CQC), que é um dos carros chefes da renovada grade de programação da emissora paulista e promete ser um dos grandes destaques da televisão brasileira em 2008.

Inspirado em um formato argentino, o programa tem no comando o experiente Marcelo Tas( ex-Globo ,ex-TV Cultura) e conta com uma trupe de repórteres que possuem um humor incontestável e um sarcasmo absurdo.

Já na estréia o CQC produziu algumas pérolas, como o presidente Lula usando os óculos símbolos do programa, uma hilariante entrevista com Gretchen e o Senador Eduardo Suplicy assumindo que já usou drogas. Mas a produção não é só humor, uma das matérias de ontem tratou do problema da água em São Paulo. De maneira bastante irreverente o repórter Rafinha Bastos defendeu os interesses da comunidade que sofre com o esgoto ,graças a uma estação de tratamento quebrada.

Em alguns momentos a atração lembrou o Pânico na TV, entretanto ele é mais bem elaborado e muito mais inteligente do que a produção da Rede TV! . E, além disso, o CQC escapa ileso do grande mau que aflige e diminui a qualidade do “Pânico”, o merchandising. Em mais de uma hora de duração o telespectador pôde acompanhar um show limpo que só foi interrompido para as naturais propagandas comerciais.

Sem sombra de dúvida o CQC irá se firmar como um dos principais programas da nossa televisão. Em tempos de mesmice e falta de criatividade , ser original faz toda a diferença. Então custe o que custar (perdoem o trocadilho) não deixem de prestigiar essa grande novidade .

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O Urso Alemão e o Cinema Brasileiro

Na última semana o mundo inteiro viu a consagração de um grande trabalho , o filme Tropa de Elite ganhou o “Urso de Ouro” no festival de Berlim.Dez anos depois de Central do Brasil os alemães se curvaram para mais uma obra-prima do cinema brasileiro.

O prêmio foi concedido ao filme de José Padilha , porém é de todo o Cinema nacional.Se o “Urso” entregue a Central do Brasil foi um novo gás ao nosso cinema que vinha de um momento bastante difícil depois do fechamento da Embrafilme , o que foi dado a Tropa é a cereja que faltava no bolo ,é a coroação de um belo trabalho dos nossos realizadores.

Isso ilustra bem o quanto a filmografia brasileira vêm evoluindo,os nossos diretores estão conseguindo casar grandes roteiros(muito originais), com grandes atuações e montagens excelentes .O que falar de Abril despedaçado, O Cheiro do Ralo, Cinema , Aspirinas & Urubus e tantos outros ,que foram produzidos com a cara e o jeito brasileiro.Segundo Fernanda Montenenegro (estrela de Central do Brasil) em entrevista recente , o aspecto que mais chama a atenção em Tropa de Elite é que "ele tem a cara do Brasil ,é feito de um jeito que é só nosso".Ou seja aos trancos e barrancos ,conseguimos criar uma nova identidade cinematográfica ,coisa que já tivemos na década de 60 com o Cinema Novo de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos(citando os principais) e graças ao esforço de grandes mentes pensantes estamos conseguindo recuperar.

Agora o que se espera para 2009 é uma indicação ao Oscar para Tropa de Elite , se vier será mais do que merecida ,mas se não o filme não pode nem deve ser menosprezado por isso, por que com certeza ele já entrou pra história do Cinema e o prêmio da Academia Americana não é mais importante que o Festival de Berlim.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Epílogo Natalino

É, passou mais um Natal, o Reveillon está já chegando e 2007 daqui a pouco vai embora. Mas antes do dia 31 são oportunas algumas reflexões.

Natal, o que é o Natal? Acho que não necessita ser cristão para saber que se trata da festa do nascimento de Jesus só que há de se concordar que a cada ano isso vem sendo esquecido e a época natalina vem se transformando no ápice do consumismo, da gastança e do endividamento compulsório.

A sociedade em geral esqueceu quem é a principal pessoa da festa natalina e substituiu Jesus Cristo por um velho obeso, vestido de vermelho, brigado com o barbeador e que tem o estranhíssimo hábito de andar numa “carroça” voadora puxada por “veadinhos”(de acordo com a lenda imbecil)...é lógico que eu tô falando do Noel ( não faço idéia de quem seja pai).

Noel ou Nicolau (seu nome verdadeiro) é na verdade e simplesmente um símbolo do capitalismo. O uso exarcebado da sua figura visa apenas o lucro nas mais variadas instâncias, do comércio ao cinema. Para onde se olhar no mês de dezembro tem uma imagem desse velho maldito enquanto os presépios estão restritos as igrejas.

A mídia também tem uma grande parcela de culpa nessa “descristianização” do Natal.Os jornais sempre dão destaque as compras , ao comércio absurdamente lotado ,as altas dos preços e sem esquecer é claro do Noel.Vale lembrar que esse ano o “Jornal Nacional” na véspera de Natal foi o cúmulo , isso porque foi veiculado uma matéria sobre a implantação de um GPS no trenó do velho bandido(pode uma coisa dessas)e no final o âncora Márcio Gomes disse o seguinte antes do boa noite, “se você quiser acompanhar todo o percurso do Papai Noel é só entrar no nosso site”, sem comentários.

Aproveitando o ensejo lanço aqui uma idéia. Vamos dar seqüência a epopéia de Noel , já que ele está substituindo Jesus deixemos que prossiga e vamos levá-lo até a Páscoa e vamos crucificá-lo na sexta-feira da Paixão ,isso mesmo, que o Papai Noel seja crucificado , vamos matar esse mito capitalista ,vamos fazer esse velho nojento sumir e como ele não é o Cristo e tão pouco sabe fazer milagres , não ressuscitará ao terceiro dia , então estaremos livre dessa maldição e o Natal voltará a ser Natal.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Eu quero música de qualidade

Outro dia liguei o rádio, aqui em Campina Grande (coisa que não faço sempre), passei por todas as emissoras em busca de uma música legal e não achei, aí fiquei puto e coloquei um CD do Cordel do Fogo Encantado (excelente banda pernambucana).Então ouvindo o Cordel me lembrei de algo que já tinha percebido e não é segredo para mais ninguém, as rádios pararam de tocar música de qualidade agora elas só executam trabalhos de quem paga, de quem dá o famoso “jabá”.

É revoltante que procuremos no rádio os nossos artistas como Luiz Gonzaga, Elba, Alceu, Geraldo Azevedo, Jackson e nos deparemos com Calcinha Preta, Aviões, Felipão,Cavaleiros, etc, etc, etc.

Hoje só tocam esses pilantras que distorcem nossa música com esse forró eletrônico, que na verdade deveria se chamar “música pornô feita para corno bêbado ouvir”, isso porque os temas de suas letras (ou falta de letras) são sempre sexo, traição e cachaça, para reforçar o que estou dizendo aí vai um trecho que define isso muito bem: “Hoje é cachaça, mulher e gaia...” (esse escarro é de Cavaleiros do Forró).

Essas músicas não nos representam em nada, não têm nenhum significado para nossa região. Onde foram parar às belas poesias como “Feira de Mangaio”, “Asa Branca”, “De volta pro Aconchego” ? Será que não têm mais valor?Sumiram os grandes compositores do Nordeste?É claro que o valor de composições como estas é inestimável, porém, falta que o povo e a mídia (ou parte dela) as reconheçam da forma como elas merecem, ou seja, como nossa verdadeira música e que ao mesmo tempo abram os olhos (e os ouvidos) e prestem atenção na nova geração que surge com certa força, mas que também não está tendo espaço como Cabruêra, Totonho, Eleonora Falcone, Escurinho, Mombojó,Mula Manca, o já citado Cordel e tantos outros que já têm um certo sucesso e carreira consolidada só que os grandes meios de comunicação fingem que eles não existem.

Sei que toda essa situação dificilmente vai mudar pois cada dia a indústria do forró de plástico (indústria é a palavra realmente por que esse estilo é fabricado de forma padronizada)cada dia cresce mais e cada dia infelizmente tem mais público,então para nós que valorizamos a grande música nordestina resta duas soluções: se transformar em um corno alcoólatra pervertido e começar a escutar forró eletrônico ou se entupir de cds e mp3 dos nossos verdadeiros artistas, e aí qual vai ser a sua?Enquanto vocês pensam vou voltar para o “Cordel” que é melhor.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Meio-dia: a hora da morte na TV paraibana

Nos últimos anos a faixa do meio dia da nossa televisão vem ganhado uma característica bem peculiar .O horário que tradicionalmente é reservado ao almoço, na TV é concedido aquela que é a única certeza que nós temos, o mal irremediável, a sentença final, o último suspiro, ou também chamada simplesmente de Morte.

Soa estranho eu afirmar que o horário é cedido a morte, não acha? Alguém já a viu com seu tradicional manto negro e sua imensa foice apresentando algum programa? Seria no mínimo original, mas não é disso que estou falando e sim dos programas policiais que contaminaram nossa telinha e têm a morte presente em diversos sentidos.

Aqui em João Pessoa das 5 principais emissoras (em VHF), 3 exibem jornais policiais entre meio-dia e 1h da tarde. E a única diferença entre os três é o canal mesmo, por que no mais tudo igual. O princípio básico de todos é “morreu, antes ele do que eu, porque só me interessa é tirar o meu ($)”. Eles vendem a morte descaradamente transformando tudo num verdadeiro show, basta alguém ser atropelado, ser assassinado ou perder a vida de qualquer outra maneira que lá estão os urubus com suas câmeras em punho filmando os rostos dos pobres cadáveres e colocando tudo no ar com a maior naturalidade achando que toda a população está preparada para ver um corpo cravado de balas ou esquartejado. Chegam ao ponto de comentarem a matéria com a imagem do defunto paralisada ou de subirem os créditos finais do programa com o morto ao fundo.

Além de fazerem uso da morte no sentido literal, eles também matam os direitos da pessoa física, quando pegam uns pobres coitados que foram presos por pequenos furtos, por vandalismo ou outros crimes (alguns causados por embriaguez), e os expõem inclusive a situações ridículas como mandar que escolham se merecem um cartão amarelo, azul ou vermelho. Entendam-me eu não estou inocentando os criminosos só acho que a justiça deva condená-los e não a imprensa.

Outro que “bate as botas” ao meio-dia é o bom jornalismo, esse definitivamente é morto da pior maneira possível. Começa com radialistas tomando o lugar dos jornalistas de formação na apresentação destes programas. Muitas vezes esses fracos apresentadores não têm a mínima noção do que vai ao ar, é comum ouvir-se os “hein”, “qual é a próxima matéria ?”, deles se dirigindo aos diretores que respondem através do ponto eletrônico. Há ainda o uso de jargões difamatórios como desocupado, mau elemento e outros. E o tiro no coração do jornalismo é a venda das noticias, o apresentador olha para câmera e diz “Foi assassinado ontem com 15 tiros e 25 facadas, no bairro do Alto do Mateus aqui em João Pessoa, o desocupado João Maria” e logo em seguida muda o ângulo e fala “Se você esta com problema de diarréia, frieira, impotência sexual, artrite, conjuntivite, gonorréia ou qualquer outra coisa tome a Água Santa e você vai se sentir melhor, a venda em todas as farmácias” ai eu me pergunto como confiar em noticias dadas nesse tipo de programa? Será que se o fabricante da Água Santa fosse preso viraria noticia? É obvio que não, caracteriza-se aqui o chamado “rabo preso” e quem sofre desse mal não pode ter credibilidade por que vai esta sempre devendo a alguém.

É meus amigos como vocês puderam ver esse povo tem fixação na morte, usam e abusam desta figura e talvez ela nem saiba disso, desse prestigio todo e da alta audiência, por que se não já tinha vindo cobrar seu direitos.

Mais quem diria né Dona Morte, de uma das personalidades mais assombrosas e temidas do Universo passou a estrela da tv paraibana... que progresso!!